terça-feira, 17 de março de 2009

O Amor



O Amor

E alguém disse:

Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;

ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.

E quando as suas asas vos envolverem,

entregai-vos;

ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.


E quando vos falar, acreditai nele;

apesar de a sua voz

poder quebrar os vossos sonhos

como o vento norte ao sacudir os jardins.


Porque assim como o vosso amor

vos engrandece,também deve crucificar-vos.

E assim como se eleva à vossa altura

e acaricia os ramos mais frágeis

que tremem ao sol,

também penetrará até às raízes

sacudindo o seu apego à terra.


Como braçadas de trigo vos leva.

Malha-vos até ficardes nus.

Passa-vos pelo crivo para vos livrar do joio.

Mói-vos até à brancura.

Amassa-vos até ficardes maleáveis.


Então entrega-vos ao seu fogo,

para poderdes ser

o pão sagrado no festim de Deus.


Tudo isto vos fará o amor,

para poderdes conhecer os segredos

do vosso coração,

e por este conhecimento vos tornardes

o coração da Vida.


Mas, se no vosso medo,

buscais apenas a paz do amor,

o prazer do amor,

então mais vale cobrir a nudez

e sair do campo do amor,

a caminho do mundo sem estações,

onde podereis rir,

mas nunca todos os vossos risos,

e chorar,

mas nunca todas as vossas lágrimas.


O amor só dá de si mesmo,

e só recebe de si mesmo.

O amor não possui nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis

que podeis guiar o curso do amor;

porque o amor,

se vos escolher,

marcará ele o vosso curso.


O amor não tem outro desejo

senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,

deverão se estes:

Fundir-se e ser um regato corrente

a cantar a sua melodia à noite.


Conhecer a dor da excessiva ternura.

Ser ferido pela própria inteligência do amor,

e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio

e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia

e meditar no êxtase do amor.


Voltar a casa ao crepúsculo

e adormecer tendo no coração

uma prece pelo bem amado,

e na boca, um canto de louvor.
Kahlil Gibran

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Tantos poetas já escreveram sobre o amor...algo que não tem definição. O amor é apenas sentido, não há definições possíveis, mesmo porque cada pessoa o sente de forma diversa. Como disse, Michelle, gosto de Gibram. Porém, o poeta que, pra mim, melhor expressou sobre o amor foi Vinícius. Não por considerá-lo o melhor poeta entre todos. Mas por considerá-lo o melhor poeta para mim, já que pensamos de forma semelhante. Minha identificação com Vinícius, com seus amores absolutos e melancolias profundas (daí me lembro da sensacional Clarice Lispector, que também era assim), é algo que nem eu sei explicar. Gosto do Gibran, mas o considero um pouco "auto-ajuda". Sou mais os poetas e escritores extremistas e impactantes.

    Estou gostando de ver seu blog. Lindo.

    Beijos!

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  3. Eu tb gosto de Vinícius, n o amo. Mas após ler o livro Cartas de Amor do Profeta e ver tanto amor e tanto desencontro vivido por Gibran e Mary por mais de 20 anos, n consegui ver mais harmoniosa, absoluta e profunda demosntração do amor e da dor. Gosto de Vinicius tb....

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  4. Ah, eu sou louca pra ler esse livro. Se você tiver, me empresta. Fiz uma crítica ao Gibran, mas não sou a pessoa mais indicada pra isso. Que fique claro que a crítica foi só em relação ao que eu conheço, e confesso conhecer muito pouco sua obra.

    Beijos, Mi!

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