segunda-feira, 16 de março de 2009

Uma Carta de Amor


"Eu fui tocado pela sua presença desde a primeira vez que a vi; foi numa exposição de meus desenhos, no estúdio do Sr. Day. Você estava usando salgo de prata em torno do pescoço, e aproximou - se de mim, perguntando:"Será que eu posso exibir alguns destes quadros na escola onde leciono"?
Eu concordei e na medida que conversávamos, sentia-me melhor e melhor. Quando fui pela primeira vez até a sua casa, senti que a atmosfera do lugar - os livros, a maneira de arrumar a casa - tinha uma profunda identificação comigo. Gostei da maneira como conversamos, e do jeito suave com que você me fez falar de mim mesmo.
Você fez muitas perguntas, e algumas vezes me senti encabulado; mas, graças ao seu espírito e inteligência, terminei contando tudo que queria saber.As outras pessoas me acham interessante. Elas gostam de me ver falar, porque eu sou uma pessoa diferente.
. Para elas não passo de um divertimento, que logo será esquecido quando algo mais curioso aparecer.Você, entretanto, foi capaz de arrancar o que havia de profundo em mim, sentimentos que raramente compartilhei com alguém. Isto foi ótimo -e continua sendo.
Ficamos amigos.
E um dia você me perguntou se eu precisava de dinheiro para ir até Paris. Até aquela data, sempre tinha recusado este tipo de ajuda, mas você me disse algo sobre o dinheiro que nunca vou esquecer: ele é impessoal, não pertence a ninguém, apenas passa por nossas mãos. O dinheiro não é uma posse, mas uma responsabilidade, e cabe a nós dar - lhe o destino certo.
Fui a Paris, sempre tendo ao meu lado a sua imagem, sua fé, e sua ternura. Ali, eu reparei que, ao invés de ver apenas a cidade, estava estudando a mim mesmo , e vendo como a nossa realção começava a afetar meu cotidiano.Mesmo com você distante, sua presença me acompanhava por ruas, praças, e cafés.
Então eu lhe pedi em casamento.
A partir deste dia, você começou a ferir-me. E continuou me ferindo. Eu sofria, mas cada vez que nos encontrávamos - nesta época, a gente se via duas vezes por semana - você falava: "Kahlil, creio que lhe magoei na quarta - feira passada" - ou na sexta, ou seja quando tivesse sido. Perdão. Você dizia. " Não pretendia fazer isto".(.....)
Eu precisava me proteger, e passei a dizer a mim mesmo: “qualquer relação mais íntima com esta mulher é impossível.”. Claro que esta estratégia não funcionou, nem mesmo quando eu lhe disse o que acontecia comigo. Mas a partir daquele instante, você nunca mais me feriu.
Tudo que estou contando, é apenas para que saiba como vi os nossos primeiros anos juntos. As coisas mais profundas jamais mudaram; a identificação que tive, o reconhecimento, a paixão do primeiro encontro - tudo isto continua igual, e assim continuará para sempre. Eu a amarei por toda a eternidade, como já a amava muito antes de vê-la pela primeira vez, e chamo isto de Destino.Nada pode nos afastar; nem eu, nem você podemos mudar esta relação. Eu quero que você se lembre pelo resto dos seus dias, que você é a pessoa mais importante do meu mundo. Que, mesmo que você casasse sete vezes, com sete homens diferentes, tudo continuaria igual em meu coração...
E hoje, também entendo que o nosso casamento era impossível. Ele teria destruido a ambos. Nossa vida em comum terminou sendo guiada de uma maneira diferente, e por isso fomos salvos. Você me ajudou a descobrir a mim mesmo, e ao meu trabalho. Eu penso que fiz o mesmo com você, e agradeço aos Céus por estarmos juntos".
Kahlil Gibran

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